Segunda-feira, Abril 16, 2012

diálogos oníricos

Mais uma vez sonhei com morte. Já contam quatro noites seguidas. O curioso é que não acordo exatamente assustada ou amedrontada, da maneira com que costumamos reagir aos pesadelos: acordo antes instigada, como se tivesse de decifrar uma mensagem descoberta. Agora, neste último, quase a capturei inteira: já formulava toda uma frase mas, antes de construir um sentido, eu despertei e a interrompi. Perdi o sonho, o sono, e a noite toda se projetou diante de mim como uma vida inteira – passou de uma vez em lampejos nos meus olhos que se abriam, e por um momento pude mesmo conter esta íntima odisseia de curvas longas.

Domingo, Abril 15, 2012

da fotogenia

"A tarefa que agora lhe cabia, na divisão do trabalho entre os componentes da mesa, era a de verificar os documentos de identidade. Revoadas de freiras, às centenas, vinham votar: primeiro as de branco, depois as de preto. Quase todas estavam em dia com os documentos: a carteira de identidade expedida alguns dias antes, novinha em folha. (...) E Amerigo não podia negar: ou o fotógrafo das freiras era um grande fotógrafo, ou as freiras são muito fotogênicas.
(...) Pensando bem, era estranho: nas fotos formato três por quatro, noventa vezes em cem, uma pessoa sai de olhos arregalados, traços inchados, um sorriso que não combina. Ao menos, ele sempre saía assim nas fotos e agora, verificando aquelas cédulas de identidade, em cada foto em que encontrava feições tensas, em expressões artificiais, reconhecia a sua mesma falta de liberdade diante do olho de vidro que nos transforma em objeto, sua relação sem distanciamento de si próprio, a neurose, a impaciência que prefigura a morte nas fotos dos vivos.
As freiras não: posavam diante da objetiva como se o rosto já não lhes pertencesse, e daquele modo saíam perfeitas. Nem todas, claro (Amerigo agora lia as fotos das freiras como um cartomante: reconhecia as que ainda estavam no aperto da ambição terrena, as que eram movidas pela inveja, as paixões não extintas, as que lutavam contra si próprias e sua sorte): era preciso que já tivessem ultrapassado como que um limiar, esquecendo-se de si próprias, e então a foto registrava esta imediatez e paz interior e beatitude. É sinal de que uma beatitude existe?, perguntava-se Amerigo (ele era levado a ligar esses problemas – que não lhe eram muito costumeiros – ao budismo, ao Tibet), e, se existe, então devemos persegui-la? Devemos persegui-la em detrimento de outras coisas, de outros valores, para ser como elas, como as freiras?
Ou como os idiotas completos? Também eles, em suas carteiras de identidade ainda cheirando à tinta, mostravam-se felizes e fotogênicos. Para eles também dar uma imagem de si não constituía um problema: significava então que o ponto a que se chega com a vida monacal, através de um caminho trabalhoso, eles o têm como dádiva da natureza?
No entanto, os que ficam no meio do caminho, os deficientes, os retardados, os neuróticos, aqueles para quem a vida é dificuldade e esmorecimento, nas fotos são um desespero: com aqueles pescoços tensos, aqueles sorrisos que parecem de lebres, especialmente as mulheres, quando lhes resta uma mísera esperança de saírem simpáticas.
(...) É bom ter beatitude? Ou seria melhor essa ansiedade, essa carga que enrijece os rostos diante do flash do fotógrafo e não nos contenta com o que somos? Sempre pronto a compor os extremos, Amerigo teria gostado de continuar se chocando com as coisas, a bater-se, e ainda assim, enquanto isso, alcançar dentro de si a calma que está além de tudo... Não sabia do que gostaria: só compreendia como estava distante, ele como todos, de viver como deve ser vivido o que procurava viver."
O dia de um escrutinador – Italo Calvino 
 
 
 

Terça-feira, Março 13, 2012

o padre, a moça

Todos somos padre e moça.

Todo amor que é o amor se furta ao mundo e é perseguido, e é proibido embora ganhe o partido de Deus. Somos todos fugitivos distraídos pela fuga, para além do pecado. Viveremos sempre assim, como o padre e a moça, eu e você: equilibristas numa linha limiar tombando um pouco para um lado ou para outro, descobrimos deuses e príncipes a um breve clarear e os assistimos desintegrar-se no ar. Não somos, nunca fomos aquele casal abençoado pela igreja e legitimado em casa: se embarcamos, lá fomos; e se fomos, para onde? Longe, aonde não chegue a ambição de chegar – somos mais errados que o casamento. Não vamos nunca encontrar este lugar onde o caminho já está percorrido: como o padre e a moça, força é que continuemos no caminho da BR15 com o rosário na mão. Que sigamos ainda, mesmo quando escutamos o tinido da mula-sem-cabeça, exatamente porque escutamos o tinido da mula-sem-cabeça. Somos todos padre e moça, pecado e angústia do outro, prisioneiros escolhidos para sempre. Não seremos consagrados por histórias mas antes atravessados pelos versos do poema – e é por flutuarmos no espaço sem raízes e por sorvermos o mesmo sono de raízes que estamos aqui. Refugiados e fugidios, à procura da verdadeira notícia. Nosso amor é como o do padre e da moça: e Deus é espinho, e está fincado no ponto mais suave deste amor.

Sexta-feira, Fevereiro 24, 2012

sem pauta

Vagamente, como os barulhos da noite ou debaixo d'água, fora da clarividência dos encontros marcados e dos cadernos pautados - é um desejo que se desenha antes disso, nas imagens que vêm com os sonos, palavras que escapam ao rigor do conceito. O desejo é um dia inteiro, um monstro de garras imensas, aquilo que sempre se encerra nas horas seguintes, mapa mundi da vontade.

Normal é aquilo que se enquadra justo nas medidas da norma: que segue o movimento pontilhado das direções definidas. Não há desejo puro que se volte para isso: ninguém quer ser normal. Ninguém nasce disposto a seguir o caminho traçado da normalidade: todos guardam outra cor, mesmo que sob camadas pastéis de condicionamento. É que a vaguidão inconstante do nosso desejo aos poucos se conforma e fecha dentro de um lugar comum - e aquilo que era real troca de lugar com o que deve ser normal. Há na normalidade o rancor da traição do desejo: e nesse ponto faltante, somos sempre míopes à procura de nós mesmos.

Desejos não se rendem à moral. E subsistem sob camadas e máscaras, sobrevivem a todas as tentativas: o desejo é ardiloso, trabalho minucioso diário: insiste, resiste, repetitivo como as ondas que quebram que quebram na praia. Ou como o gesto infinitamente o mesmo e contínuo até que o centro do alvo, o cume, o auge do gosto doce e amargo.

Domingo, Fevereiro 19, 2012

fala

"O amor apaixonado se deve apenas ao fato da pessoa amada suscitar em nós os melhores aspectos de nossa alma e de se admirar com eles."
Leon Tolstói.

Fala by Secos & Molhados on Grooveshark

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012

Um dos maiores problemas

é terminar um livro ao qual dedicamos uma parte de nossas vidas. Sempre gostei de ler livros grandes (e aqui falo mesmo de sua grossura, da quantidade de páginas) porque eles me tomam muito tempo, e por isso me envolvo profundamente com eles. Seu tamanho me dá a segurança de que esse envolvimento será longo e de que poderei fazer do livro um refúgio certo, seja onde eu estiver. Gosto de andar na rua com os livros grossos, segurá-los debaixo do braço: eles são sempre um porto seguro para a bagunça do resto do mundo, um lugar onde posso encontrar de novo tudo aquilo que se desenha paralelamente à realidade e que também confere a ela outras cores, outras luzes. À medida que leio um livro grosso, vou criando intimidade com o papel das páginas, a fonte das letras, a divisão dos capítulos: é uma relação toda trabalhada e que demanda esse tempo de leitura que só um livro de mais de quinhentas páginas pode oferecer.

Mas o que fazer quando se anuncia o fim dessa leitura que parece sem fim, já que corre com tanta força como uma parte essencial da minha vida? Preciso continuar a ler, porque vivo ali também; no entanto, quanto mais leio, mais se confirma a certeza de que o livro vai terminar. E terminar um livro com o qual me envolvi tanto não é simplesmente se separar de um amigo, como já diz o chavão: é saber que com ele termina também qualquer coisa do que sou, qualquer coisa do que se formou em mim a partir dessa leitura e que só posso encontrar nas páginas do livro que me acompanha. Gosto dos livros grandes porque sei que posso guardar neles um pedaço de mim, que permanecerá bem seguro dentro de cada capítulo. Mas realmente não gosto de terminá-los.

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012

cabimentos

O que fazer com as coisas depois que elas acabam?

Elas poderiam somente acabar – assim: delimitar para si mesmas um contorno necessário e bastar ali, na linha certa, sem sobrar para fora nem transbordar pelos buracos que ficam. Acabar como deveriam, por todos os lados e em todos os seus aspectos, pedaços, partes: tudo deveria acabar junto. Se as coisas acabam, elas tinham então de acabar de fato. Mas o fim das coisas parece sempre deixar na sua margem espaço para que ainda insistam, e um fio das coisas segue correndo mesmo depois de seu limite. Acabam mas continuam: não satisfeitas, ainda que acabadas, as coisas às vezes voltam quando não estão mais acontecendo. Depois de seu fim, as coisas na verdade não são mais coisas nem a sua realização – já cumpriram esse papel, e agora elas são só ecos que por não existirem têm uma insistência mais vertiginosa, cansativa. O que fazer com as coisas depois que elas acabam? Como avisar a elas que finalmente terminaram? O que é preciso dizer para que compreendam que já estão mortas, seu tempo já foi – e que agora elas têm de ir completamente para nos deixar continuar também, antes que acabemos?

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2012

el noi de la mare


El Noi De La Mare by Soundtrack on Grooveshark

Tudo atravessa uma sensação e ganha correspondência aqui, agora. Neste momento quando todas as coisas já aconteceram, e absolutamente tudo já se fez: o que sobra é só o novo, sempre o novo, nada mais do que aquilo que ainda não aconteceu. Teremos de celebrá-lo de novo, inventar mais uma vez um território para continuar.

Como poderia ser diferente? Que ponto, que momento do desenrolar desenfreado do tempo poderia ter sido de outro jeito que não exatamente como foi? Que mudança, que gesto, que curva desviaria um pouco daquilo que conduz a este instante? Que peça a menos, que peça a mais, que encaixe, que rede é essa que toma os acontecimentos e os direciona sempre e com tanta precisão para mais uma vez este presente, este presente que continua como se não fosse um movimento?


Terça-feira, Janeiro 31, 2012

Mais um problema

é que a leitura frequentemente nos coloca numa posição como que externa ao mundo. Enquanto leitora, ocupo um lugar muito peculiar diante de um livro: estou em seu cerne, no núcleo duro de onde os acontecimentos brotam, sou o meio pelo qual tudo e todos ganha força e realidade; mas, ao mesmo tempo, estou também completamente à margem do livro que leio, já que só tenho como observar aquilo que acontece, sem a possibilidade de intervir ou de participar do que no entanto acompanho. Assim, ler é sempre ambíguo -- o leitor não faz exatamente parte da história, ainda que a história precise dele para continuar. Essa posição é perigosa: porque, se leio demais, corro o risco de às vezes me colocar desta forma também diante do mundo, do qual decididamente faço parte e isso não posso questionar.

O leitor dentro de seu livro é como um gato dentro de uma casa: ele está lá, sempre lá, muito atento e de olhos bem abertos, assíduo e consciente de tudo o que se passa; ele sabe onde encontrar cada habitante da casa, sabe aquilo que cada um está fazendo, e na sua quietude de gato parece saber também aquilo que cada um pensa. Mas fica ali, o gato, em silêncio: acompanha, julga, avalia, compreende; sabe de tudo, e para todos os habitantes da casa o gato tem aquele jeito misterioso e incompreensível, como se ocupasse um lugar a que ninguém além dele tem acesso. Assim também o leitor investiga sempre quieto as tramas de seu livro, cúmplice das personagens mas nunca bem junto delas.

Domingo, Janeiro 29, 2012

Outro problema

é que a leitura constante cria a ilusão de que também estou sendo narrada. Na verdade, não é bem que eu acredite que há um narrador descrevendo todos os meus gestos e pensamentos, decidindo o meu destino; mas eu o sugiro, e muitas vezes até procuro por este narrador. Procuro por ele porque só os narradores sabem organizar os fatos da vida a ponto de compreender qualquer coisa que nos escapa, a nós que estamos vivendo. Muitas vezes, enquanto leio, desejo sinceramente que o autor possa, tanto quanto faz com seus personagens, me descrever e às pessoas que me rodeiam: com que palavras ele desenharia nossa fisionomia? Como traçaria as relações desapercebidas que se constroem entre mim e um passageiro apressado do metrô? O que perceberia num movimento, no instante em que dou um passo em falso ou quando coloco o cabelo para trás da orelha?

Como para os pintores de antigamente, as pessoas deveriam posar aos escritores para que eles as descrevessem. Já que não tenho essa possibilidade, ler é sempre um exercício de pensamento, a transposição para a atualidade daquilo que se acende vivo nas palavras do autor. O que Tolstói diria?, é uma pergunta que tem voltado para mim com muita frequência, enquanto atravesso a jornada que é Guerra e Paz. Nunca sei exatamente como respondê-la, mas as tentativas contínuas acabam me levando a compreensões que eu nunca teria sozinha.